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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Epifanias de uma mochila

Fechar a mochila tem sido a parte mais tensa dessa jornada.

Carregar os 15 quilos nas costas é uma alegria depois que você consegue fechar a bendita.

Falar em mímica com motorista do tuk tuk, pegar ônibus pirata no interior da Tailândia sem entender direito se vai te levar ao seu destino, dormir agarrada com a bolsa para não perder o passaporte e os poucos bahts de vista. Tudo isso é tranquilo.

O difícil é fechar a mochila!

Larguei uma muda de roupa em cada cidade.

Não cabe.

Não precisa.

Calcinha? Jogo tudo fora! 

Não cabe.

Não precisa.

Não preciso das usadas. As limpas têm certa utilidade

É muita coisa que a gente carrega sem precisar.

Tênis que não usa, calça que não serve mais, casaco sem necessidade.

Medo. Culpa. Arrependimento.

Não cabe.

Não precisa.

"Você tá parecendo uma hippie" - MÃE, Minha

Tudo culpa do "vai que".

"Vai que esfria"

"Vai que chove"

"Vai que lá não tem"

"Vai que eu quebro a cara"

"Vai que eu me ferro"

"Vai que eu sofro"

O precavido carrega quilos de coisas desnecessárias. E faz promessa pro santo protetor dos viajantes pra conseguir fechar a mochila.

Por isso eu resolvi deixar muita coisa pra trás. Livrar-me de tudo que não cabe e não precisa.

Desapego

Pra que tanta roupa se a gente usa sempre as mesmas?

Pra que esse blush se tem dias que não rola nem de escovar os dentes?

Desculpa, sociedade. Tem dias que não rola mesmo

Pra que essa culpa se ela não vai mudar nada do que já foi feito?

Tá feito!

Liberte-se!

E assim, a mochila tá ficando mais leve. 

11 dias, cinco cidades e 1420 km depois, eu aprendi que para fechar a mochila a gente tem que carregar apenas o necessário.

Tem que aprender a separar o essencial do "volume dispensável e incoveniente".

Isso vale para roupas, pensamentos e pessoas.

Quando a gente se livra do que não precisa, abre espaço para coisas novas!

Sai a calcinha suja, entram os presentinhos para os amigos, por exemplo.

De novo: A lógica é a mesma para roupas, pensamentos e pessoas.

Tem que abrir espaço para o novo chegar e parar de carregar peso à toa!

Não cabe.

Não precisa.







segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Eterna na Malásia

Doze horas de espera em um aeroporto.

Você tem tempo para fazer muita coisa, inclusive nada.

Você tem tempo para pensar que precisa de um banho.

Você tem tempo para desejar uma cama como nunca antes na vida.

Você tem tempo para pensar em como seria lindo um prato de macarronada, com muito alho e molho de camarão.

Você tem tempo para tentar fazer cálculos a fim de descobrir como perder menos dinheiro na hora de trocar as moedas entre os países.

Você também tem tempo para se dar conta que não sabe mesmo fazer isso.

Apenas mais três horas e meia...


Você tem tempo para fuçar a vida de todos os ex's (namorados, paqueras, peguetes, etc) no Facebook e no Instagram.

Você também tem tempo para fuçar a vida daqueles que são promissores "futuros" (namorados, paqueras, peguetes, etc) no Facebook e no Instagram.

Alá, todo mundo postando foto da "Lua de sangue". Espero que não tenham perdido o eclipse enquanto postavam...

Caracas, todo mundo foi a um casamento esse fim de semana! 

Ah, não! Todo mundo estava no Rock in Rio esse fim de semana.

Ou assistindo pelo Multishow.

Beleza: #lua, #rockinrioeufui, #multishow. Ah! E tem uma galera xingando o governo, só pra variar.

Ok! Deu de redes sociais!

...

Ainda tenho duas horas...

Tem tempo para reparar como na Ásia a diferente é você.

E em como todo mundo te olha com aquela cara de "por que você não penteia o cabelo e cobre ele com um véu?"

Gente, dormir no aeroporto não favorece ninguém, me dá um desconto!

E eu sou da parte legal do Ocidente! Nós, latino-americanos, nunca exploramos nenhuma civilização oriental! Pelo contrário, a gente também foi explorado!

Dá tempo de revisar mentalmente alguns fatos históricos.

E tem tempo de sobra para pensar que vai ter uma síncope nervosa "na próxima vez que essa mulher anunciar mudanças no portão de embarque nessa língua que eu não entendo"

É meu voo?

Que língua é essa?

Ah! Agora é inglês!

Mas, que sotaque é esse??

Faz silêncio, gente! Eu tenho que me concentrar pra entender!

Aí, porra! Voltou pra língua esquisita de novo!

Não entendi! Vou ter que ir lá no telão checar MAIS UMA VEZ!

235 vezes nas últimas sete horas!

É sério! A mulher na cala a boca!

...

Em sete horas no aeroporto da Malásia foram três cafés. Talvez, por isso eu esteja meio ansiosa. E com essa dorzinha de leve na boca do estômago.

Na verdade, a dorzinha eu acho que é porque posso ter engolido uma barata no último café.

Eu ia pedir um muffin, mas tinha uma barata andando na vitrine do muffin.

Aí, eu pensei que o café era mais seguro, porque rola a água quente e tals, mata os germes...

Beleza! Café!

Fui pegar um saquinho de açúcar e uma colherzinha para mexer. Mas, o que tinha lá?

Isso, barata!

Calmaê que a mulher tá mudando portões de novo!

...

Só peguei o "thank you" do final! E um Singapore no meio... Deve ser o meu voo não.

...

Enfim, voltemos à barata. Tinha uma barata lá no meio das pazinhas.

Daí, eu já imaginei uma família de baratas na máquina do café e uma delas no meu copo.

E foi assim que eu engoli uma barata. Porque, gente, eu precisava do café! E tava ruim não.

Jesus Cristo! A voz do além de novo! E sempre tem um sinal sonoro antes, tipo uma campainha, que me assusta!

Sério! Tá perturbador!

Ah! Agora é o meu voo!! 

"Boarding now".

Aleluia!

.
.
.

Opa! Tem uns monges no meu voo! Vai dar tudo certo, então!

Vamo nessa!

Namastê


PS: O aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia, é limpinho, gente. Tem WiFi de graça e vários pontos com tomadas para carregar o celular. E tem lanchonetes confiáveis também. É que no final eu já estava bem zoada do fuso, sem dinheiro e com fome - fica fácil fazer escolhas equivocadas.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Finish him...



O dia em que o livro acabou
Sabe quando o livro que te acompanhou por semanas acaba e voce fica meio órfão? 

Então...

Exatamente sete dia antes da minha partida, o livro acabou. E, estou sentindo falta dele.

O caderno que testemunhou minhas confissões, confusões e divagacões também está no final. As últimas folhas em branco reservadas para os últimos dias.

Até o pacote de papel higiênico que eu comprei na promoção vai acabar essa semana.

Coincidência? Estratégia inconsciente?

Não sei, mas está tudo terminando por aqui.

Parece que tem cinco anos que eu sai de casa. Mas, passaram como cinco semanas. E tem apenas cinco meses. Foi tudo bonito, intenso e verdadeiro - disse Gusttavo Lima.

Foi. Na última potência.

Se era frio, era muito frio
Se era vento, era ventania
Se era chocolate, era TimTam
Se era limão, era muito caro

Se era saudade, era doída
Se era amor, era saudade
(Se tem saudade, era amor?)
Se era sozinha, era autêntico

Aí, chegaram as pessoas
Completamente especiais
Conectadas pela mesma vontade de resignificar, reiventar, redescobrir
Conectadas pelas mesmas crises de "o que eu tô fazendo aqui?"
Conectadas, agora, pelos planos de novas conexões

O "voltar" é meio assustador
A gente sabe o destino, mas sabe que nao é o mesmo lugar
Eu vou caber? 
Voltar pra onde? Voltar pra quê?

Porque o livro acabou
Porque você preencheu o caderno todo
E não tem mais papel higiênico

Tem que começar de novo
Escolher um outro título
Comprar um novo caderno - em branco
E o papel higiênico...
Bom, tem coisas que a gente não recicla

Ainda bem que o sonho não é uma delas

...

HADOUKEN!!!

<< YOU WIN >>





sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Episódio 5: Nada (nada mesmo!) será como antes

Na infância eu tinha medo.
Sempre fazia o caminho mais longo para evitar passar por um.
Até que veio a fase do "quero um!".
Mas, discurso de mãe que cria filhos em apartamento é sempre o mesmo.
"Nem pensar! Não tem espaço nem pra gente direito".
E não tinha mesmo. Você nunca caberia em um apartamento.

Mas, chegou o dia da mudança.
Era uma casa. Grande. Muito espaço.
"Mãe, não tem mais desculpa".
- Eu não vou dar banho, não vou dar comida, não vou cuidar de nada. Se virem!

Mãe sempre tem discurso pronto.

Mas, ninguém resistiria a você! Uma bolinha de pelos! E, eu lembro, a mais quietinha da ninhada. Desde cedo dava sinais de que seria uma lady.

E foi.

No começo, um ursinho chorão. Mas, eu te entendo. Fazia frio e você estava longe dos seus 11 ou 12 irmãos.

Depois, um ursinho cagão.
Mas, a culpa foi nossa. Não deveríamos ter colocado leite na sua ração.

Pra cumprir a promessa, o despertador tocava 15 minutos mais cedo - era preciso trocar os jornais do seu canil antes de ir pra escola.

O canil. 
Rapidinho você aprendeu a fugir dele. Uma bolinha de pelos que escapava pelas grades e corria pra rolar na terra.
Porque quando você chegou ainda era terra. 
Depois veio a brita e só mais tarde a cerâmica. 

Você acompanhou todas as fases - e se divertiu em todas elas.

Quando você chegou eu era uma adolescente retardada. 
Ninguém me amava, só você - eu pensava.
E eu queria tanto que o João Guilherme me amasse... Lembra dele? 
Eu falava dele pra você.

Eu também te falei que não aguentava mais estudar para o vestibular.
E aí, a gente corria atrás dos sacos de supermercado para relaxar.
Você nunca cansava. Você sempre queria mais.

Você também correu comigo pela casa quando saiu a lista de aprovados.
"Tô chorando, mas dessa vez é de felicidade, Leka! Não precisa se preocupar!"
Pronto! Fomos celebrar!

Você acompanhou todas as fases - e me divertiu em todas elas.

Você também foi testemunha de vários segredos.
Nunca contou pra ninguém, mas deixava claro sua desaprovação e logo se retirava.
Você odiava fumaça de cigarro.

Mas, gostava de mamão. E de frango! 
Fazia questão de anunciar que queria um pedaço do "nosso almoço" assim que farejava uma ave no forno.
E sempre ganhava.
E sempre queria mais.
E sempre ganhava.

Você merecia.

A adolescência acabou. As responsabilidades aumentaram.
Eu quase não parava em casa. Mas, sempre que chegava você e seu cotoco, agitado de um lado pro outro, me davam aquela sensação de "home, sweet home".

(E agora?)

A gente não tinha mais tanto tempo pra brincar. Mas, você nunca guardou mágoas disso.
E se eu começasse uma dieta nova, você sempre topava correr comigo pelo condomínio. 
E você corria!
Feliz!

Até que começou a ficar cansada.

Correr atrás de sacos de supermercado continuava legal, mas você às vezes caminhava - e já não pulava tanto.
Mas, estava lá!

Você sempre estava lá. Era só chamar.
E quando eu chegava em casa de madrugada - voltando da balada ou de um plantão cansativo - você sempre estava lá.

Ultimamente você não levantava mais para me receber.
Mas, sempre espichava o pescoço e balançava o cotoco.

(E agora?)

Eu pedi pra você me esperar! Eu falei que voltaria rapidão!

E agora?

Desculpa querer que você ficasse, mesmo com dor. É que eu sou egoísta mesmo. Queria ver seu cotoco balançando mais uma vez.

Desculpa por todas as vezes que você trouxe a bolinha e eu não tive paciência de jogar.
Por todas as vezes que eu te ameacei com a varinha para você parar de fugir.
Por todas as vezes que eu gritei quando você espirrou na minha perna.

E obrigada por me amar quando ninguém mais amava - mesmo depois de eu me recusar a jogar a bolinha, te ameaçar com a varinha e gritar pra você não espirrar na minha perna.

Obrigada por correr comigo.
Obrigada por me abraçar depois que eu chegava da corrida - e você não podia mais me acompanhar.
Obrigada por nos proteger e avisar quando alguma coisa estava fora de ordem.
Obrigada por ter acompanhado tudo.
Obrigada por sempre estar lá.

E como o "sempre" sempre acaba
Dessa vez, você não estará.

;(



11 anos de amor

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Episódio 4: Um novo caso de amor

Quem me conhece na intimidade vai ficar supreso com tamanha exposição. Mas, sim: estou amando e quero que todo mundo fique sabendo!

Um caso de amor que nasceu em Sydney em um momento em que, mais do que nunca, estou me dando a oportunidade de experimentar todos os sentimentos, sem medos ou repressões.

Longe de casa, da família e dos amigos é fácil ficar vulnerável. E acredite, eu ponderei muito sobre isso antes de assumir para mim mesma - e agora pra todo mundo - esse sentimento. 

Pode ser carência. Não se empolga!

Mas, e essa sensação de plenitude quando chega a hora do nosso encontro? E essa vontade incontrolável de ter por perto toda a hora? E essa fraqueza que eu sinto quando, na correria do dia, não dá tempo da gente se encontrar?

Não é só carência... acho que eu gosto mesmo!

Quando a gente gosta, sente a pele arrepiar só de sentir o cheiro, né?

Quando a gente gosta, todo tempo junto é pouco, né?

Quando a gente gosta, mal se despede e já pensa no proximo encontro, né?

Quando a gente gosta, faz qualquer sacrifício para estar junto, né?

De acordo com os meus conhecimentos em romances baratos, a reposta para todas as questões anteriores é SIM.

Portanto, é oficial: eu gosto! Gosto muito! 

Por isso, amigos, parentes e todo mundo que apostou que eu talvez decidisse não voltar para o Brasil porque encontraria um grande amor, acho que vocês acertaram. A vontade de ficar é grande principalmente por causa dele.




Café, seu lindo, eu te amo!

Eu sei que tem café no Brasil - e dos bons! - mas não se trata apenas de 'beber café', é a experiência por trás disso!

É comprar um take away no caminho para a escola, fazendo uma oração de 'vambora segunda' a cada gole, cruzar a ponte e dar de cara com aquele engravatado que está com uma mão no bolso e a outra do lado de fora, congelando, mas tem que segurar o copo de café!

Mocha, latte macchiatto, CAPUCCINO, flat white (que, reza a lenda, é invenção australiana)... tem para todos os gostos. Um em cada esquina, uma delícia de vício!

No começo era um por dia, de manhã, só pra dar uma animada. 


Mas, pô! Vou estudar a tarde toda, preciso de um café

Dois por dia. De segunda à sexta. Tá razoável.

Mas, no sábado... estava faltando alguma coisa... 


Acho que eu vou ali no Union* tomar um café

E aos domingos é a pedida perfeita para sentar e ler o jornal, antes de fazer as compras da semana.

Eu me rendo, não sei mais viver sem você! Os dias não são os mesmos sem você!

E não estou sozinha nessa. Tanto que tem festival de café para alegrar todos os viciados!

Aroma Festival 2015 - The Rocks lotada de stands vendendo cafés do mundo todo por AUD$ 2,00
O Aroma Festival é um evento anual que dura quase todo o mês de Julho. Ao longo de 20 dias são oferecidos vários workshops e cursos de barista. Mas, é no Aroma Festival Day que os amantes de café se acabam: um domingo inteiro com os melhores 'cafés' da cidade vendendo suas maravilhas por AUD$ 2. 

Tem competição, com direito a voto popular, para eleger o melhor café de Sydney. E claro que rolam os "acompanhamentos", porque nem só de café vive o homem, cupcakes e alfajors também são necessários. Para os descafeínados, tem chá - de todas as ervas (lícitas) imagináveis.

Foi um domingo de inverno ensolarado e energético! Foi quando eu me entreguei totalmente à paixão. Foi quando eu me dei conta que não tenho mais controle sobre mim - ele me domina!

Capuccino, sempre ele!
Então, podem respirar aliviados, amigos. Correspondendo a todas as expectativas, eu encontrei um companheiro australiano e agora minha vida está completa! 

E a gastrite vai bem, obrigada!


*Union é o café perto de casa cujo barista faz a espuminha do leite parecer manjar. E rola cartão fidelidade: compre cinco, ganhe um! Toda semana rola um na faixa! Sou fiel!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

27

Existe uma espécie de mito por trás do número 27. Hendrix, Joplin, Morrison, Cobain, e, mais recentemente, Winehouse, ajudaram a reforçar a lenda. O clube dos 27.

Se nada acontecer nos próximos 40 dias, escaparei de fazer parte da estatística .

Por mais que eu não faça nenhuma questão de entrar pro clube cabalístico, devo dizer que uma parte morre mesmo aos 27.

Pra todo mundo? Não sei. Pra mim, sim.

Morreu uma parte cética, convicta, cheia de certezas e que se achava velha.

Morreu uma parte dura, que não chorava em público, que não falava sobre os próprios sentimentos.

Morreu uma parte racional, controladora, sistemática, cheia de melindres.

Morreu uma parte ansiosa... mentira! Essa parte ainda está viva, mas bem debilitada. Não sei se chega aos 28.


Espero que não.

Mas, se morre uma parte, nasce outra. Ou, sai do lugar onde se escondia, oprimida pela autoritária parte velha que não suportou os desafios dos 27.

A parte nova é bem nova! E não se assusta mais com os ~late-twenties~. A parte nova se acha jovem e vê um mundo de possibilidades pela frente.


:: um laço no espaço para pegar um pedaço do universo que podemos ver::

A parte nova questiona todas as certezas antigas, chora no meio da praça quando recebe uma mensagem fofa no Whastapp ou ouve uma música cheia de lembranças, e entendeu que tão importante quanto sentir é falar que sente.

A parte nova desisitiu de controlar a vida - porque ela é governada por forças muito mais inteligentes - e entendeu que sempre rola um cinza entre o branco e o preto.

A parte nova acredita que é pra frente que se anda e que a tendência é sempre melhorar!

A parte nova é uma otimista - o que deixaria a parte velha completamente transtornada. Aliás, desconfio que foi por isso que a parte velha se foi - não aguentou ver tanta alegria por nada.

Por nada?

Por nada!, diria a parte velha.

A parte velha era míope. Não enxergava direito de longe. E de perto, só via defeitos.

A parte nova também é míope. Mas, agora coloca os óculos para ver loooonge - e acha um encanto para cada defeito.

Sempre tem! Procura que tem!

A parte nova ainda fica tensa com mudanças, mas aprendeu a se divertir com elas e tem certeza que tudo vai se ajeitar, da mellhor forma possível. As lágrimas durante o processo são necessárias e úteis. Levaram a parte velha embora, por exemplo.

A parte nova adora a própria companhia. Sozinha, aprendeu a se acompanhar. A se respeitar. E desisitiu de agradar todo mundo.

Se a parte velha não conseguiu, quem sou eu?

A parte velha, coitada, passou boa parte do tempo tentando. Conseguiu apenas uma gastrite - que lembra a parte nova que "remediado está" se não há o que fazer.

"O acaso é o grão-senhor", diria Caetano.

A parte nova concorda.

Mesmo sabendo que não existe ::acaso::

A parte nova é assim, meio subjetiva...

Acho que eu gosto mais dela.





sexta-feira, 3 de julho de 2015

Chocolate ou limão?

Se a vida te der um limão...

... E você estiver na Austrália, guarde muito bem porque ele custa uma fortuna!

Um chá de gengibre com mel e limão é tudo que uma pessoa gripada precisa. Mas, não é simples como ir ali no meu quintal, pegar um limaozinho e fazer um chá.

Não.

Com o dinheiro gasto para comprar um único limão, eu poderia comprar DOIS KitKats na promoção.

Quer dizer... Limão ou chocolate?

Em condições normais de temperatura e pressão, é claro que eu levaria o chocolate. Mas, gripada eu não sinto o gosto de nada, então...

Levei o chocolate assim mesmo.

E depois tive que voltar para comprar o limão, porque a gripe nem me deixou dormir.

Foi uma noite limão.

Nos momentos "limão", nada faz sentido. Você se pergunta o que está fazendo tão longe de casa.

Com o nariz entupido e a cabeça pesada você quer a sua cama, o seu pijama, a sua mãe.

Bem diferente daquele momento "chocolate", andando por um dos parques da cidade, com o mar de um lado, o gramado verde do outro, e o céu azul brigando com o Sol pra saber quem é mais bonito.

Nesses momentos, você pensa que pode morar num lugar desses pra sempre.

Longe de casa a vida é uma oscilação constante entre limão e chocolate.

É chocolate conhecer novos lugares, novas pessoas, se perder nas ruas da cidade e descobrir atalhos desconhecidos pelo GoogleMaps.

Mas, é limão não estar presente na comemoração de aniversário de velhos amigos, perder as festinhas de família, e encarar o vento gelado na cara, andando pelas ruas desconhecidas, sem conseguir respirar e raciocinar ao mesmo tempo - porque a gripe não deixa.

É chocolate perceber que a comida que você faz está ficando cada dia melhor - agora ela é comível!

Mas, é limão lembrar da farofa de banana da Cleo, da canjica da minha mãe e da pamonha da vovó.

Onde eu vou achar uma pamomha em Sydney? Sem chance!

Ficar (tão) longe de casa é uma experiência doce e azeda. Mas, não é como chocolate com limão. 

É chocolate. Depois limão. Não necessariamente nessa ordem.

Você não sente os sabores misturados. Tem a hora do doce e tem a hora do azedo. E você passa de um para outro em questão de minutos. É um estado de bipolaridade.

É chocolate se sentir confiante, sabendo que é capaz de resolver os perrengues que aparecem, por mais que haja choro e ranger de dentes durante o processo.

É chocolate a sensação de que você é apenas um pontinho nesse mundão de meu Deus, e de que ninguém está nem aí se você improvisa uma burka pra se proteger do frio, vai fazer compras de moletom ou molha o biscoito no leite.


O frio faz você perder qualquer tipo de vaidade


Mas, também é limão essa sensação de que você é apenas um pontinho nesse mundão de meu Deus. Por isso, cresce a vontade de se cercar de gente do bem, que queria o seu bem. Cercar-se de gente chocolate!

Mas, claro, não é uma dicotomia. Há nuances entre o chocolate e o limão. E é possível passar por todas elas - ida e volta - ao longo do dia.

E nem é coisa de brasileiro. É coisa de ser humano longe de casa. 

E como em Sydney tem mais "ser humano longe de casa" do que canguru, é fácil se aproximar das pessoas. Porque a gente nem sabe explicar direito o que é - muito menos em inglês - mas, todo mundo se entende.

E se acolhe. E tenta se ajudar achocolatando a vida.


PS: Falando em achocolatado, alguém avisa a Pepsico que não tem Toddy em Sydney. Tem Nescau (que é super caro, mas não ganha do limão), mas não tem Toddy. Nem nada parecido com Toddy - já testei vários. Yes, I'm a Toddy person!