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domingo, 24 de março de 2013

Um galo na testa – o retorno pra realidade de Tarantino


Sabe aquele momento em que você olha para o cara, seu coração dispara e você tem certeza que ele será o amor da sua vida naquela noite?

Em cinco minutos você imagina como seriam felizes, como vocês têm química, como vocês combinam e como tudo faz sentido, agora que encontrou sua alma gêmea.

Falta só descobrir o nome dele.

Aí ele olha pra você, tem a mesma sensação, se aproxima e pronto: vocês são um casal apaixonado.

Só que não.

Sim, você encontrou o amor da sua vida de uma noite, mas ele não sabe disso e nunca saberá. A menos que você esteja em um filme de comédia romântica ou em algum conto do Walt Disney – esse ilusionista de criancinhas.

No mundo real, o amor da sua vida até olha pra você. E para as outras 20 mulheres que estão em volta, com um decote dez vezes maior que o seu, um short estilo “Lurdinha no baile funk do Alemão” e um salto daqueles que você jamais arriscaria nem experimentar.

No mundo real, a noite acaba e o amor da sua vida tem o amor da vida dele.

E não é você.

Nem nenhuma daquelas 20 mulheres de decote, short e salto agulha, que você queria que fosse para ter um argumento de “auto-absolvição”. É uma mulher normal. De sapatilha e com um decote menor que o seu.

Enquanto você reflete sobre sua existência, depois de perder o amor da sua vida daquela noite, encostada no balcão do bar, um capacete surge do nada e cai na sua cabeça em uma velocidade luz, fazendo você voltar pra realidade.

Um capacete mesmo. De motociclista. No meio da sua testa.

Sabe aqueles cinco minutos que você levou pra se apaixonar? Você precisa desse mesmo tempo pra discernir se tem alguém brigando na balada ou se, de repente, começou a chover capacete.

Até descobrir que foi apenas um garçom burro e baixinho, numa tentativa desastrada de pegar o capacete que estava em cima do freezer de cerveja.

Enquanto sua cabeça estava no meio da trajetória do capacete, o amor da sua vida se divertia com o amor da vida dele. Aquele, que não é você.

É isso que eu chamo de mundo Tarantino.

No mundo Tarantino, você volta pra casa com um galo na testa, se perguntando quantos pregos pregou na cruz de Cristo e pensando no prato de macarronada que vai bater quando chegar em casa, pra curar a ressaca e a frustração.

Ok. No mundo Tarantino “mesmo” você veria alguma cabeça explodir depois de ser atingida por um tiro de pistola e voltaria pra casa com sangue na roupa.

Ainda bem que vivemos apenas no mundo real.

Um galo na testa já é suficiente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Prédios, degraus e Camões


Tem alguém aí totalmente satisfeito com a vida que leva? É possível isso? Ou estamos todos condenados à inquietude eterna?

É como se a escada nunca tivesse fim. Você sobe, sobe, sobe e o que te motiva é olhar pra cima e ver que lá do alto do prédio a vista deve ser linda. Aí você continua subindo e quando chega, aprecia a vista por um minuto, agradecida pela oportunidade e pensando que todos os degraus valeram a pena.

Até que você olha em volta e percebe um prédio mais alto ainda, de onde a vista deve ser muito mais abrangente, panorâmica. “É pra lá que eu quero ir”.

E começa a subir mais e mais degraus.

Sempre haverá um prédio maior? O nosso prédio nunca será da altura suficiente?

Essa possibilidade me assusta. Porque, pensando assim, passaremos a vida subindo escadas e nunca teremos tempo de sentar no terraço com uma taça de Lambrusco, admirar a vista, sentir a brisa no rosto e recuperar o fôlego da subida. Nesse raciocínio, a gente pára (com acento porque eu me recuso a abandoná-lo e as novas regras ortográficas nem estão valendo ainda) somente quando o coração der um siricutico no milionésimo degrau.

E aí? A subida foi pelo menos divertida? Ou a preocupação em chegar era tão grande que a gente nem observou as obras de arte que enfeitavam os corredores?

Além disso, há algum problema com os prédios normais? Aqueles que não são um arranha-céu, são apenas edifícios. Cumprem sua função, são honestos e limpinhos, no padrão. Não se destacam, é verdade, mas compõem o cenário da cidade.

Ninguém quer tirar fotos em frente à fachada dos prédios normais. Mas, eles continuam ali, sendo úteis pra muita gente. E a vista do terraço também é bonita. Por que não se contentar com ele?

Porque contentamento é quase sinônimo de preguiça. De derrota.

É?

Contentamento descontente, diria Camões.

De onde vem toda essa pressão, Camões? É proibido contentar-se de contente?

Talvez seja o momento de sentar no degrau onde estiver, dar uma olhada em volta e pensar se continuar subindo é uma vontade ou uma imposição. Se o desejo não é, na verdade, descer e brincar no térreo, onde não há nenhum risco de cair – ou onde a queda é menor.

Às vezes é preciso mais coragem pra descer que pra subir, mesmo com a força da gravidade a seu favor.

Agora, se a vontade for subir, tem que ir! Nem que seja pela escada de incêndio. O que não pode é passar a vida esperando o elevador. Eles demoram a chegar e não cabe todo mundo lá dentro. Somente alguns alcançam o topo do edifício sem o esforço dos degraus. 


segunda-feira, 7 de maio de 2012

O medo de não poder "resetar"


clica na tirinha que ela fica maior! ;)




Uma vida só é pouco. É muito pouco.

Não dá pra fazer, em uma vida só, tudo que a gente planeja. E aí, pra otimizar o tempo, nós somos obrigados a fazer escolhas.

São milhões ao longo da vida. Que filme assistir? Que roupa vestir? Pra onde viajar? Com quem se relacionar? Quais palavras usar?

Enquanto a nossa maior dúvida é decidir entre o caderno da Turma da Mônica e o da Minnie a vida é linda. Porque se fizer um pouquinho de drama seu pai acaba levando os dois.

Conforme a gente vai crescendo as escolhas ficam mais difíceis. Você tem que escolher se vai de vestido ou de calça jeans pra aquela festinha matinê da escola que é a sua chance de impressionar o menino mais bonito da sétima série. Aí você vai de jeans, ele nem olha na sua cara e você conclui: devia ter vindo de vestido.

Mas aí, já era! A sua chance foi desperdiçada. Você fez a escolha errada e agora não tem mais volta. Perdeu o gatinho da sétima série. E você nunca vai saber como seria se tivesse ido de vestido.

Você nunca vai saber como seria se tivesse feito vestibular para Psicologia. Se tivesse vendido tudo pra fazer um curso fora do país, se tivesse dado seu número de telefone certo. A gente não tem segunda chance nessa brincadeira.

Porque é fácil o Mario enfrentar o dragão do castelo para salvar a princesa depois que a gente já pegou um quilo de moedinhas e tem 65 vidas. Com 65 vidas até eu! Ainda mais podendo dar pause e reset. Mole!

Aliás, um botão de “reset” faz falta no mundo real. Ainda que fosse limitado, pra não perder muito a graça de viver. Mas, a gente podia ter a opção de “começar tudo de novo” em algumas situações... Consertar algumas coisas...

Normalmente essa aflição é coisa de gente covarde, que tem medo de arriscar e descobrir que não era bem isso que queria. E, como eu sou meio covarde, a aflição é, pelo menos, coerente.

Só fica um pouco mais complicado quando a covarde também é meio sonhadora e empolgada. Gosta de fazer muitos planos e enlouquece só de imaginar que pode passar pelo mundo sem ter conhecido todas as fases, sem ter lutado contra todos os chefões, sem ter descoberto todos os caminhos alternativos, sem ter zerado o Super Mario Bros.

Fica aí, “mafaldeando”, escrevendo tudo que ainda tem que fazer na vida e guardando os papeizinhos no fundo de uma gaveta qualquer para ver se abafa o grito insistente das vontades. Mas, eles só aumentam.

Vou perguntar pra Mafalda como faz.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Prefiro equações numéricas

Não entender direito como as coisas funcionam sempre me deixou um pouco irritada. Das equações matemáticas de segundo grau às fórmulas para calcular o volume de um cone dentro de um trapézio. Das contas para encontrar a força necessária para movimentar uma polia – eu sempre lembro do meu professor de Física quanto faço “puxada alta” na academia – às ligações peptídicas.
Enfim, não entender “coisas” contribuiu bastante para minha gastrite. Chega um momento em que você desiste de aprender, decora a fórmula, faz um milhão de exercícios e passa no vestibular. Pronto. Nunca mais a trigonometria me perturbou.
Aí você tenta a mesma tática com as pessoas. Porque tem muita gente que é incompreensível. E não entender as pessoas é chato também. Não irrita, mas aflige.
É que não tem fórmula para pessoas.  Depois de brigar muito, ou se omitir demais, você até consegue aprender como lidar com elas. Mas, nem sempre dá certo. Não é como com números. Na matemática a fórmula nunca falha. Já com as pessoas...
E para descobrir mais ou menos como agir, é preciso muito exercício, muito teste. Assim como com os problemas de física. Só que fazer exercício com pessoas acaba com a minha sanidade.
Não dá pra pegar a borracha, apagar todos os cálculos e começar tudo de novo. Não dá pra arrancar a página do caderno, amassar e jogar fora. Não dá pra fazer anotações e perguntar pro professor na próxima aula. Não dá pra simplesmente esquecer aquilo tudo, escolher uma profissão que não exija raciocínio matemático e botar fogo no livro de exercícios.
Tem que encarar. Porque é preciso conviver. Vivemos em sociedade, não é mesmo? Não dá pra entrar numa bolha com um computador, um livro e um saco de balas de caramelo. Não sem ser internado numa clínica psiquiátrica. O que pode ser uma bela escapatória.
Mas, tentando não enlouquecer, é difícil entender as pessoas. E o comportamento delas.
E por que tentar?
Porque o comportamento delas interfere diretamente no seu. Por mais que a gente tente ser indiferente e seguir o próprio caminho, sempre vai ter a vida de alguém no meio. Pra ajudar, ou pra atrapalhar. Ou pra não fazer nada, o que irrita também.
E existem umas convenções falhas que você jamais vai ver no mundo dos números. O 1 é sempre o 1. E o resultado de 5 + 5 é sempre o mesmo. Agora, no mundo real das pessoas humanas, é mais parecido com a química – tudo depende das condições de temperatura e pressão. E de cortisol no organismo.
Porque existe uma definição de amigo, de mãe, de irmão, de filho, de cachorro. Mas ela muda em algumas situações. Varia de acordo com os interesses do amigo, da mãe, do irmão, do filho, do cachorro. Tudo multiplicado pelo o que você espera do amigo, da mãe, do irmão, do filho, do cachorro. Elevado ao quadrado e dividido por dois.
Como na matemática, o resultado depende de quem faz as contas. Bom ou ruim, cabe a você lidar com ele. E é aí que começa o verdadeiro problema.
Agora eu entendo porque algumas pessoas preferem os números.

Obs1: Nunca coloque fogo em livros. Eles sempre podem ajudar alguém. Doe pra biblioteca mais próxima de você.
Obs2: Nunca coloque fogo em pessoas. Mesmo que elas não sirvam pra ajudar ninguém. Dê um livro pra elas.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vó, eles que não mexem comigo!

Gertrudes não é diferente de ninguém. Quer dizer, é um pouco, mas em alguns aspectos a vida dela é bem comum. Por exemplo, a família cobra dela o que toda família cobra de uma menina jovem: um namorado.
Antes as tias, primas mais velhas e a avó ficavam em polvorosa pra saber sobre a menstruação. “E aí, ela já ficou mocinha?” A pergunta era pra mãe e em tom de cochicho, mas Gertrudes sempre ouvia e queria se enterrar no chão de tanta vergonha.
Quando finalmente Gertrudes conheceu os “prazeres” da TPM, a família estava ansiosa pelo primeiro beijo. “Você ainda é BV né, minha filha?” – porque sempre tem uma tia descolada que acha que falar no mesmo linguajar que os pré-adolescentes aproxima e facilita a comunicação.

Não. Não facilita.
Mas, sim! Gertrudes era BV. No entanto, nunca admitia. Nem negava. Deixava no ar. O que era o mesmo que dizer:  “Eu nunca beijei, mas tô louca de vontade e morro de medo de alguém descobrir isso!”

Só que, na época, Gertrudes achava que era a melhor opção. E achava que estava conseguindo disfarçar.
É porque Gertrudes foi a última da galera a beijar. Demorou! E quando finalmente aconteceu, ela sentiu como se tivesse se livrado de um peso.  “Agora eu posso responder a pergunta -  Claro que não sou BV, eu tenho 16 anos, já beijei muito!”
Mal sabia ela que as cobranças nem tinham começado.
Ainda tinha o vestibular, a carteira de motorista e, a perseguição que continua: o namorado.
“Mas e os namorados?”
NamoradoS! No plural!
Não gente, não tá fácil pra ninguém!  Gertrudes está se esforçando pra conseguir UM. E já tá mais que suficiente!
Gertrudes: Então vô... eu não tenho namorado.
Avô de Gertrudes: Mas nenhum?
Gertrudes: Não, vô! Nenhum!
Avô de Gertrudes: Mas nem na faculdade?
Em outras palavras e de maneira sutil, o avô de Gertrudes quer dizer que é um absurdo a pessoa ser jovem, se relacionar com várias pessoas na faculdade e não ter um namorado.
Gertrudes concorda! Mas, vai fazer o quê? Ela também não tem explicação.
Gertrudes: Não, vô! Nem na faculdade!
Avó de Gertrudes: Tá certa, minha filha! Tem que estudar primeiro. Moça só pode casar depois de formar!
Porque a avó de Gertrudes sentiu o drama e tentou dar uma força. O problema é que ela só adiou a cobrança. Porque agora Gertrudes se formou e, segundo as convenções sociais, já pode se casar.
“E os namorados, Gertrudes?”
Continua no plural!
Mas, Gertrudes entende a preocupação da família. Porque ela também está começando a ficar preocupada. Ela começa a se perguntar, “cadê os namorados, Gertrudes? Por onde eles andam?”
E quando se tem primas e irmãs mais ou menos da mesma idade, a cobrança vem de forma comparativa. Porque, só falta você!
E aí que a família de Gertrudes resolveu desencanar! Uma parte acredita que é por opção, outra deve achar que ela tem mesmo algum problema e não vai namorar nunca.
Até eu acho que Gertrudes tem algum problema e não vai namorar nunca. Mas, não precisa dizer isso na cara dela!
Porque enquanto a avó se orgulha de contar como a irmã de Gertrudes é sagaz e disputada pelos menininhos da cidade, tenta consolar Gertrudes:
Avó de Gertrudes: Você não, né minha filha? Você não mexe com isso!
“Olha vó, eu juro que eu tento mexer com isso! Mas eles é que não querem mexer comigo” – pensou Gertrudes ao sorrir carinhosamente e concluir que mais que uma necessidade afetiva, o namorado é quase um atestado social. Ela só sabe não ainda o que quer atestar.

Ainda bem que minha avó não é assim!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"O que existe é o Sol, o resto é invenção"

Não que eu acredite em espíritos, mas que eles existem, existem!
Tem um que sempre incorpora em mim quando eu estou dirigindo ou assistindo futebol. É a entidade mais desbocada e impaciente que eu conheço. E ela é forte! Forte e inconseqüente – duas características que juntas são um desastre iminente.
O fato é que, dirigindo ou vendo futebol, eu solto palavrões que eu nem conheço e desafio a medicina me mantendo viva mesmo com os batimentos acelerados e a pressão baixa.
Não sou eu. É a entidade que me domina. De um jeito meio torto ela me ajuda a controlar o nível de cortisol. Mas tem situações que nem ela dá conta.
Pode xingar, chorar, gritar... só o vômito de palavras dá jeito. Isso quando elas saem. Às vezes ficam presas de uma maneira que não há dedo na garganta que resolva. Elas entalam e ficam te sufocando por vários dias... até que de repente vem aquele jato misturado com suco gástrico e bile! Alivia quem vomita, enoja quem vê. Nesse caso, lê.
Mas, este vômito aqui não é sobre vômito não.
É sobre a incapacidade humana de viver um dia de cada vez. Porque tudo que você faz agora é pensando em alguma coisa de amanhã. Ou de depois de amanhã. Ou do Natal. Mas nunca é do hoje.
E a única certeza que a gente tem na vida é que amanhã o Sol vai nascer. Mesmo que você não veja, mesmo que você nem esteja mais nesse mundo. O Sol vai continuar nascendo dia após dia – pelo menos até 2012, segundo o calendário Maia.
Porque o Sol existe! O resto é você que inventa! As necessidades, os problemas, os palavrões, tudo invenção da sua cabeça (?).
O Sol existe. O que você faz no espaço de tempo que ele leva para morrer e nascer de novo, é uma escolha sua.
Porque o Sol pode fazer merda. Pode acordar puto e resolver se esconder entre as nuvens. Pode ceder o lugar pra chuva, quando não está a fim de trabalhar. Ou pode até queimar a gente com tanta felicidade. Ele pode tudo. No dia seguinte é um novo dia e ele pode começar tudo de novo, ou tentar mudar. Há sempre uma segunda chance. Todo dia é uma segunda chance.
Já você...
Quantas chances a gente tem? Por que a gente age como se sempre fosse dar tempo de fazer tudo? E se não der? Por que planejar em longo prazo? Por que não agora, enquanto dá pra ver o Sol nascer?
Você trabalha hoje pra receber no fim do mês. Você estuda hoje par se formar daqui a quatro anos. Você não come uma pizza hoje para estar magra no verão. E pra hoje? O que tem pra hoje?
O que tem pra agora?
Ou você jura que vai comer menos, correr mais, trabalhar menos, viajar mais, brigar menos, beijar mais em 2012?
Eu juro que no final de 2012 – se os Maias estiverem enganados e o mundo não acabar – estaremos todos fazendo as mesmas promessas para 2013.
Até chegar 2077 e você escrever no epitáfio – “Não tem amanhã pra mim hoje”. Isso sendo bem otimista. Porque a expectativa de vida de quem nasceu no ano passado é de 73 anos. Chegar aos 90 é muito lucro pra quem estreou em 1987.
Sem falar que há intempéries da vida que podem te levar antes. Vai que você decide dar a volta ao mundo amarrado a balões de gás hélio e eles estouram? Vai que você se engasga com uma espinha de peixe? (eu tenho pavor de morrer engasgada!) Vai que um bêbado com a entidade desbocada te atropela na faixa de pedestre? Tudo pode acontecer.
Ou não.
Porque, o que existe é o Sol. O resto é invenção.
E Morpheus, hoje eu quero a pílula vermelha!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ode ao Dia das Crianças

Outubro.

Há 14 anos esse mês era sinônimo de Dia das Crianças para mim. O que, obviamente, remetia à ideia (que naquela época tinha acento) de presente! Era o momento de ficar atenta às propagandas da televisão para decidir que Barbie pedir - a ginasta? A bailarina? A empresária com carro e telefone celular?

Agora, outubro é apenas o sinônimo de fim das minhas férias!

Férias.

Desde que eu completei 12 anos essa é a única época da minha vida que eu passo as manhãs em casa.
No começo é bom. Na verdade, é ótimo. Você dorme até a hora que quiser e não fica com remorso de estar perdendo doze horas do dia na cama.

Aí, a gente começa a dar uma olhada no que tem pra ver na televisão: uma loira conversando com um papagaio e te ensinando a fazer quitutes; dois pirralhos girando roletas e gritando "PLEIesteiXOM, PLEIesteiXOM, PLEIesteiXOM"; dois jornalistas indignados com a violência de São Paulo ou com o fim do relacionamento de algum global, uma ex-modelo loira comentando as últimas da Fazenda e um mestre-cuca ensinando famosos a cozinhar.

E os desenhos animados?

Ah, sim! Os desenhos.
Tem “Avatar a lenda de Aang “, “Transformers“,  “Ben 10” e um monte de outras coisas que transformam gente em robô, têm superpoderes e lutam contra monstros metamórficos que ameaçam a continuidade da vida na Terra.

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ben10


Hã?

O que aconteceu com a magia da infância?
Onde estão os desenhos lúdicos e fofinhos?
É tudo tão cibernético e hi-tech… cadê as relações humanas?
Onde está a simplicidade do relacionamento entre crianças?
Onde foi parar o encanto do mundo infantil?
Enfim… 

O que aconteceu com o Fantástico Mundo de Bobby?



Porque o Bobby é o melhor! Eu me indetificava com ele de uma forma muito profunda. Aquelas viagens, aquelas histórias criadas pela imaginação… Era tudo tããããõ legal. Era tudo tão infantil!
E o Doug? Onde foi parar Doug Funny?
 


O menino certinho que vive uma paixão platônica por Patty Maionese, desabafa com seu cachorro Costelinha e  escreve, secretamente, um diário e as aventuras em quadrinhos do Homem-Codorna.  Tããããão legal!

Dramas reais! O relacionamento com o melhor amigo, Skitter (apesar de ser verde, ele era de verdade), o conflito com a irmã mais velha Judy, o constragimento de ser humilhado pelo bad boy da escola, Roger. Todo mundo se identificava. E ninguém era mutante!

E o mais fofo de todos…



Os Ursinhos Carinhosos

Okay. Eram ursos falantes. Mas eram lúdicos e ensinavam boas maneiras!
Aiai… como eram boas aquelas manhãs comendo pão com manteiga, molhado no leite com toddy e assistindo Ursinhos Carinhosos…

Outros bichinhos falantes adorados pela geração de crianças dos anos 90 eram os Muppet Babies.


A angústia de nunca poder ver a cabeça da babá e ficar só imaginando como era o rosto daquele ser de meias listradas, o amor da Pig pelo Caco, o constrangimento do Caco com amor da Pig, a falta de noção do Gonzo… tinha também  o cachorro tocador de piano, o Rowlf (meu preferido) e o Animal, um bebê judiado, coitado. Como era feio! Mas divertia a manhã de crianças felizes e inocentes.

Até a produção dos desenhos era mais legal. Cada um tinha uma abertura, era como são as novelas hoje em dia: era só começar a musiquinha que você logo sabia qual desenho ia começar.

Era assim com Cavalo de Fogo, Caverna do Dragão,  Os Smurfs…


Isso sem falar dos programas infantis, como Glub Glub,  Agente G e Rá-Tim-Bum. Ou os seriados infanto-juvenis tipo Blossom.  Mas isso é assunto para um outro pitaco.
O pleonasmo que me desculpe, mas a infância dos anos 90 foi muito mais infantil  do que a da geração 2000 (o nosso forte é a rima!). A gente gostava de superpoderes também - é só lembrar de He-Man, She-Ra, PowerRangers e Capitão Planeta – mas ainda conseguíamos nos encantar com as histórias bobas de  Punky – a levada da breca.

As manhãs eram muito mais divertidas! E ninguém precisava de TV por assinatura.
Por isso, preocupada com o futuro das nossas crianças, deixo aqui um apelo:

Vocês, que eram molecotes nessa época boa e que agoram estão grandinhos, se formando, virando  produtores, desenhistas, criadores ou diretores de empresas de comunicação, por favor, desenvolvam desenhos legais para os nossos filhos poderem assistir (e, se possível, reprisem o Bobby e o Doug, pelo menos)!


Esse post foi escrito e publicado em março de 2009 no Pitacos e Petiscos. Com a proximidade do Dia das Crianças decidi ressucitar o texto com algumas adaptações temporais.