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terça-feira, 9 de junho de 2015

4 semanas


Acaba um dia, começa uma semana


Agora a unidade de medida é semanal
O aluguel? Paga por semana
O desconto na passagem do trem? Semanal
O curso de inglês? Quantas semanas?

Viver a semana é mais dinâmico
Todo domingo vence
São sete dias até o início do próximo ciclo
De sete em sete: 30!

Quatro semanas na velocidade da luz
Tudo virado em 180 graus
Adianta o relógio em 13 horas
E começa a contagem regressiva

Semana 1: jet lag
Físico e espiritual
O corpo veio, a cabeça ficou
As malas também
O coração não entende direito
Cadê aquela zona confortável?

Semana 2: budget
Sabe fazer conta? É bom aprender
O dinheiro tá contado
O dólar tá subindo
A cerveja do sábado não cabe mais na semana
Toma água que é de graça

Semana 3: cold
Do clima, da gripe, da solidão
Corre que aquece
O corpo e a alma
A serotonina ameniza a saudade
O WhatsApp também
A alegria é por conta do Tim Tam*

Mas, o vento entope o nariz
Três pacotes de Tim Tam inceideiam a gastrite
E WhatsApp às vezes dá nó na garganta

A mensagem nem sempre é boa
O relógio corre dos dois lados
De lá, alguém não pôde esperar
De cá, não dá tempo de voltar
"Adeus, amor, eu vou partir. Ah! Eu vou embora"
E foi
Perdi um abraço

Sete dias? Setenta e sete.

Semana 4: Birthday's Queen
Feriado de mentirinha
Casa nova. Sentimentos novos
Cozinha de verdade. Almoço de verdade
É tudo novidade. De novo
E já dá saudade da semana 1
Que passou em 30 dias
E coube em quatro semanas
Mas, não cabe aqui
Mas, não cabe em mim

* Tim Tam: não se sabe se é biscoito ou se é chocolate, mas essa nem é uma preocupação. Basta saber que é perigoso porque causa dependência química, seguida de compulsão, na primeira mordida.



sexta-feira, 5 de junho de 2015

Enquanto uns se preocupam em boicotar boticas...

... Outros esgotam as vendas de ingresso para exibição de documentário que retrata a vida de crianças adotadas por casais homossexuais.

É isso!


Fiquei sabendo pelo Facebook sobre a polêmica campanha de Dia dos Namorados de O Boticário. É frustrante perceber que amor ainda é causa de tanto preconceito.


Sim, porque o vídeo não mostra nada além de: casais apaixonados trocando presentes.


O problema é o quê? Homem com homem e mulher com mulher?


Um dia, o problema já foi negro com branco e rico com pobre.


E nem faz muito tempo.


E nem "foi". A gente sabe que ainda " é". Mas, agora PELO MENOS é feio (e, dependendo do caso, dá cadeia, só pra lembrar) admitir publicamente esse tipo de preconceito.


Então, o mundo não está tãããão perdido assim. As mudanças vão ocorrendo. Lentamente? Bem lentamente, mas o movimento não para.


Quer ver como a tendência é melhorar?


Para a minha alegria, esta semana começou o Sydney Film Festival 2015!


Tudo bem que eu vou ter de escolher entre almoçar e assitir a algum filme, mas faz parte dessa minha nova vida de estudante.


Na verdade, eu já escolhi. Ninguém precisa almoçar todo dia, isso é invenção do mundo moderno.




São 12 dias intensos de exibição de 218 títulos, entre filmes inéditos, reeditados, documentários, animações, curtas e tudo aquilo que cinéfilo adora.

Tem longas de 68 nacionalidades diferentes (sim, tem do Brasil!), além de palestras gratuitas (!) com alguns diretores e roteiristas.


Passado o frenezi inicial, eu fui olhar com calma a programação, já que almoçar é sim para os fracos, mas eu sou meio fraca. Precisava garimpar dois filmes no meio de uma lista linda dessa.


Foi então que dei de cara com Gayby Baby. Trata-se de um documentário australiano sobre a vida de quatro crianças que estão sendo criadas por casais do mesmo sexo. É uma investigação para saber quem elas são, como vivem e o que acham de ter dois pais ou duas mães.


[Encaixe aqui a piadinha do Globo Repórter]


E aí, rolou boicote?


Os ingressos para o primeiro dia de exibição do documentário esgotaram antes do festival começar.



E tem mais: Gayby Baby foi produzido por uma fundação sem fins lucrativos, criada com a finalidade de arrecadar recursos, por meio de doações, para patrocinar documentários pautados por causas sociais - é a DAF (Documentary Australia Foundation).

Ou seja, não boicataram, incentivaram a produção doando dinheiro e selecionaram para disputar, com outros nove títulos produzidos da mesma forma, o prêmio de melhor documentário do ano.


Pessoal, há uma esperança!


Enquanto a gente discute se pode mostrar beijo, curtir vídeo ou comprar perfume da marca que aceita a realidade como ela é, tem uma galera que já admite isso como um fato e está correndo atrás é de estudar as transformações culturais e sociais geradas por esse fato.


Muito mais justo e humano do que fingir que homossexuais não existem e não constroem famílias.


E não trocam presentes no Dia do Namorados.


Pode ser lento, podemos estar meio atrasados, mas olha aí: dá pra chegar!


O mundo anda é para frente!  E o progresso é visível. Pode até ter uma galera querendo segurar o avanço, mas tem mais gente empurrando!


Há 30 anos um casamento interracial não era bem visto. Nenhuma das famílias achava "certo". Mas, e aí? Eu nasci!


Meus pais são casados até hoje e lá em casa ninguém é E.T.


Não adianta boicotar. O amor não funciona com a lógica capitalista, fundamelista, egoísta. E é o amor que impulsiona o progresso.


E eu vou para aqui antes que fique onírico demais.


PS: Favor não me boicotar.










segunda-feira, 1 de junho de 2015

Lado B

A paisagem bonita com filtro que realça as cores do céu.

A selfie marota na balada de sexta-feira.

A viagem de férias.

A sobremesa gourmet com calda de chocolate escorrendo pelas bordas.

Tudo isso é lado A.

É o popular. O legal. O que as pessoas querem ver.

O hit que bombava nas rádios sempre estava no lado A do vinil - ou das fitas K7 (minha prima de 17 anos não sabe o que é uma fita K7. Estou oficialmente velha ultrapassada).

O lado A é o lado dos hits. O que todo mundo ouve. O que agrada a maioria das pessoas. O "sucessão".

No lado B, a banda gravava as músicas que, geralmente, não eram unanimidade. Aquelas que não são pop, apesar de dizerem muito sobre a personalidade dos músicos. 

Às vezes são tristes. Às vezes são melancólicas. Às vezes são contestadoras. Às vezes são tristes, melancólicas e contestadoras. E, mesmo assim, bonitas!

" Help" é lado A.

"All together now" é lado B.

"Pais e filhos" é lado A.

"Eu era um lobisomem juvenil" é lado B.

Lado B é aquele seu momento "meio puto meio reflexivo" antes de prestar atenção no céu de cores bonitas que podem render uma boa foto no Instagram.

É aquela "bad vibe ressaqueada" que você sente no sábado meio-dia, depois que acorda da balada de sexta, mas que ninguém no Instagram vai ficar sabendo porque não renderia muitas curtidas.

É a crise de culpa que você tem depois de subir na balança e perceber a merda que deu comer aquela sobremesa maravilhosa com chocolate transbordando durante o último mês.

Mas, né? Vai tirar foto da celulite e jogar nas redes sociais?

Nunca! Lado B. Ou melhor, lado C!

Lado B é aquele choro sentido de saudade, escondido pela linda paisagem.

É aquele desespero de saber que seu pai perdeu o irmão caçula e você não consegue correr para abraçá-lo porque está há umas 22 horas "voando" de distância.

É lidar com pessoas que acham que, no mundo, terá sempre alguém para servi-las. E que tudo bem entupir a pia, ou explodir o microondas, ou deixar essa meleca no chão -  alguém vai dar um jeito nisso na segunda-feira.

Por que jogar comida dentro da pia, gente?????

Mas, você vai postar o hostel nojento? A fronha manchada do rímel que escorreu na sua crise de choro? 

Claro que não! Melhor postar o Opera House iluminado pro Vivid Festival!



Quase um carro alegórico da Mangueira


Mesmo com pouquíssimas pessoas ouvindo, o lado B sempre esteve lá! Nos shows, tocava uma ou duas músicas, e só quem era fã cantava junto.

Quem era fã, muita vezes até preferia o lado B.

Ele é mais genuíno. Mais revelador. Mais subjetivo. Por mais que não seja tão agradável.

O lado B vai estar sempre ali e diz tanto sobre a gente quanto o lado A. Por mais que não seja bonito, é nosso. Faz parte. Compõe.

A saudade é minha! A dor é minha! A celulite é minha! A vontade de sair correndo ao se deparar com uma montanha de lixo na cozinha é minha! E diz muito sobre quem eu sou.

Lidar com o lado B também diz muito sobre quem eu penso em ser.

...

No último show de Brasília, Paul McCartney abriu com "All together now". E não tocou "Help".

Com o tempo, a gente assume o lado B porque aprende a gostar dele. Porque percebe que ele é o que realmente é. O lado A é o que parece ser.

É o lado B que faz o A ter sentido.

"Eu era um lobisomem juvenil" é minha música preferida da Legião Urbana.

Lado B.

"Parecer" cansa. É mais fácil "ser". 

Viva o lado B!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Episódio 3: Sobre toalhas, pedestres e bebidas

Foram quatro dias e quatro noites pensando no que eu teria que fazer caso minhas malas tivessem caído no limbo dos aeroportos e nunca mais aparecessem. E uns 30 minutos de ligações para a cia aérea, recheadas de "sorry?", "can you repeat, please?" e "I don't understand" até que...

Localizaram a bagagem! 

Onde?

No Brasil! Eu vim, elas ficaram.

Numa quarta-feira cheia de cólica, recebi uma ligação antes das 8h perguntando se eu estaria no hostel na hora do almoço. 

Não estaria, mas eis um bom motivo pra matar aula.

Desliguei o telefone e levei um tempo pra entender se era real ou sobrenatural, já que estava meio dopada de ácido menfenâmico*. 

Era real!



Elas chegaram! Valeu, anjo das malas!

Eram 12h23 de uma quarta-feira quando a gente se reencontrou!

Sujas? Sim. 

Meio rasgadas? Também.

Mas, quem liga? Minhas calcinhas e minha toalha estavam lindas e cheirosas esperando por mim - tanto quanto eu por elas!

O cheirinho da minha casa - que deve ser do amaciante, mas me conectou diretamente à minha casa - impregnado na toalha nunca mais será esquecido! Foi tipo meu anjo me abraçando, com cheirinho da minha mãe, dizendo que iria dar tudo certo!

Foi confortador, para essa primeira semana longe de tudo.

...

Superado o problema da falta de roupas, é chegada a hora de começar a se encaixar na cidade e fazer com que ela comece a aceitar você. 

Como todo início de relacionamento, a gente vai se conhecendo devagar, aos poucos entendendo o que pode ou não fazer, o que é bom, o que é ruim, o que ofende, o que gera multa...

Atravessar a rua fora da faixa ou com o sinal vermelho para pedestres, por exemplo, gera multa. 

Sabe aquele momento em que você olha para um lado, olha para o outro e calcula que a distância do próximo carro é suficiente, se você der uma corridinha para chegar do outro lado da calçada?  Então, Sydney não curte isso.


Policiais disfarçados ficam de olho nos apressadinhos. Ouvi histórias de gente que foi multada em até $200; gente que teve que abrir o Facebook no celular porque alegou estar sem documentos na hora...

True or false?

.
.
.

Dizem que é verdade.

E as pessoas respeitam?

Talvez estrangeiros sem dinheiro com medo de serem multados - tipo eu, que fico sozinha na calçada, esperando o sinal de pedestres abrir, enquanto todo mundo dá a famosa corridinha para passar enquanto não vem carro nenhum.

Então, a história das multas é lenda urbana?

Pode ser! Mas, considerando que aqui a mão é invertida e eu ainda não entendo os cruzamentos dessa cidade, acho mais seguro e econômico esperar o sinal abrir.

Considerando que vivi em Brasília 25 anos e ainda não sei fazer as tesourinhas, é provável que eu espere pra sempre o sinal abrir

Agora, a faixa de pedestre todo mundo respeita! Candangos estão em casa!




Acho uma graça a plaquinha que sinaliza a passagem de pedestre...

Essa é de arco-íris porque fica na rua gay de Sydney! :)

Não sei se é por isso, mas faz sentido, né?  Se não for, deveria ser! 

Pedestre aqui tem prioridade em qualquer circunstância. No supermercado, tinha uma moça com o carrinho de compras e eu, com a cestinha. 

Rolou aquele momento "vamos entrar no mesmo corredor ao mesmo tempo agora", sabe? Ela parou imediatamente pra eu passar. Quando vi, tinha uma faixa de pedestre pintada no chão!

Mentira! Tinha não, ela foi gentil mesmo.

Nem sei se todo mundo é assim, ou se dei sorte de cruzar com uma pessoa educada - prefiro acreditar nas duas possibilidades

Outra coisa que Sydney não gosta: gente bêbeda na rua. Aí, o pessoal quase não bebe.


É por isso que eles não têm Carnaval

True or false?




*Mãe, não estou usando drogas, isso é remédio pra cólica





sexta-feira, 15 de maio de 2015

Episódio 2: Com a roupa do embarque

Eu chego no hostel e tem um quarto lindo e cheiroso esperando por mim! Uma cama fofa e aconchegante, com um jogo de toalhas limpinho em cima da cama. Além disso, tem um serviço de emergência para hóspedes que têm as malas extraviadas: eles oferecem roupa limpa para passar a noite e leite quente com chocolate para confortar o coração.

Quem me informa isso é um brasileiro, com sotaque pernambucano, que chegou uma semana antes de mim. Disposto a ajudar, ele me mostra a vizinhança e os lugares com comida boa e barata.

True or false?

Vou nem responder

...

Como tinha alguém no quarto seis - que sim, era individual - agradeci a Deus por já ter um chip de celular e liguei para o número de emergência do hostel, já que não vi nenhum ser humano pelas redondezas.

Procuro loucamente alguma ajuda na estante de "vocabulário de inglês para reclamações", mas não tem quase nada. Só acho "shit".


Nunca, nas 238 mil horas-aula de inglês que eu fiz (somando Ensino Médio, cursinho, espisódios de Friends sem legenda e letras dos Beatles no Vagalume) eu tive lições sobre "como reivindicar um quarto quente e um pernambucano simpático em caso de desespero". Fica a dica para os professores de inglês.

Felizmente, quem atendeu a minha ligação percebeu o meu tom de "eu não sei mais o que fazer" e... falava português! Pronto, reclamar em português eu sei! Aliás, é uma das minhas especialidades.

Mas, nem foi preciso. Super atenciosa, a moça estranhou o problema, pediu cinco minutos e retornou a ligação com a solução.

- Você está no quarto 13!

Azar ou sorte?

Não tinha toalha limpa, nem chocolate quente - muito menos pernambucano. Mas, tinha cama fofa e manager do hostel para me levar ao supermercado. 

Compra toalha, compra calcinha, compra sabonete e, se vira como pode.

Depois de um sábado bem agitado, vesti meu pijama da Qantas e agradeci por, depois de duas noites dormindo sentada, poder esticar a coluna. Não sem antes bater um longo papo com o anjo das malas.

...

No domingo, primeira manhã em Sydney, o anjo da mala não mandou nenhuma novidade sobre o paradeiro das bagagens. Mas, mandou uma ajuda gigantesca em forma de amiga!

Engana-se quem acha que fazer estágio durante a faculdade serve apenas para ter experiência no curriculum e conseguir grana para ir aos churrascos universitários. Nos estágios você também pode conhecer pessoas que vão te salvar se você estiver sem roupa em Sydney!

Ela me ensinou a pegar o trem, me levou para comprar roupa barata, para fazer o "bilhete unico do metrô", para almoçar, para ver o Pacífico, para comprar comida no supermercado barato, para comprar shampoo na farmácia, para ganhar yogurt e Red Bull de graça no meio da rua... praticamente uma aula de "como sobreviver em Sydney"!

E vocês aí, duvidando dos anjos!



Turistando com a roupa do embarque


E o melhor de tudo foi esquecer por todas aquelas horas o meu singelo problema da falta de malas.

O fato é que eu decidi fazer essa viagem para dar um tempo de tudo e analisar se estava direcionando a vida por caminhos que realmente me interessavam - ou se estava simplesmente sendo levada pela inércia.

Deixei meu emprego, deixei meus pais, minhas cachorras, meus amigos, minha cama quente e minhas roupas limpas para ver como eu me sairia em outras circunstâncias, em outro ambiente, em outro fuso.

Quer ver como se sai? Então, se vira! E só com a roupa do corpo!

E desapega!

Não é suave sair da inércia - eu lembro de algumas coisas da aula de Física. É confortável andar por ruas conhecidas, vestir o jeans que já tem a forma do seu corpo, falar e ser compreendida, ouvir e compreender.

Mas, depender do GoogleMaps, usar uma calça meio curta, comprada com o cartão de emergência da cia aérea, pensar 15 vezes antes de formular uma frase simples e se esforçar para não perder nenhuma palavra do que o caixa do banco está falando, mantém a gente alerta. Desperta. Liberta.


E, como diria Lenine, isso é só o começo!

(Quem não conhece, procura essa música. É muito boa.)

Preciso mandar um beijo para Mônica Plaza, que está me ajudando em tantas coisas, mesmo antes de eu sair do Brasil. Esse tal de jornalismo dá uns frutos muito bons! 

Um salve para os estágios universitários! E para o Uptoyou, fruto do jornalismo da Mônica, que dá dicas e tem histórias excelentes!





quinta-feira, 14 de maio de 2015

Episódio 1: Sem lenço, porém com documento - Parte II


Eram 36 quilos de roupas, sapatos, cremes, maquiagem (maquigem!!!!!), perfume, remédios, relógios - enfim, a vida - perdidos em algum dos três aeroportos pelos os quais eu passei antes de chegar em Sydney.

Duas malas. Uma eu nem paguei ainda.

Na primeira viagem que eu fiz para fora do Brasil, ficar sem mala era a minha maior preocupação. E a minha mochila foi a primeira a aparecer na esteira. Desde então, na minha lista de "coisas que podem dar errado", o último item era "ficar sem bagagem".

"Elas sempre chegam"

Ouvia histórias de amigos que tiveram as malas extraviadas, de gente que perdeu compras inteiras feitas em Miami, de mala que chegava violada. Lia notinha no site do TJDF (isso é plantão de fim de semana na redação, meus amigos) de passageiros que ganhavam indenização por danos morais das companhias aéreas... Eu sabia que era uma realidade.
Mas, confiava no anjo das malas.

...

Na fila de reclamações de bagagens perdidas, eu e outro brasileiro. O rapaz estava na minha frente. A atendete pegou os dados dele, digitou alguma coisa no computador e rapidamente informou que as malas estavam em Santiago (Chile) - nossa última escala - e chegariam no dia seguinte. Anotou o endereço dele, pediu desculpas, e afirmou que a mochila seria entregue onde ele estivesse.

Bom, dos males o menor. Amanhã tudo estará resolvido - pensou Carolina, tomada pelo torpor do jet lag.

Pronto. Minha vez. A atendente repete o procedimento. Pega meus dados, digita no computador, e eu já estava procurando meu novo endereço para preencher a ficha que ela iria me dar para entregar minhas malas no dia seguinte...

- Sua bagagem não foi localizada.

- Sorry, what?

- Não sabemos onde estão suas malas. Vamos te dar esse cartão para despesas emergenciais e esse kit com pijama e escova de dente para você passar a noite. Ligue neste número amanhã para atualizar as informações.

Olha, eu ainda não consigo fazer barraco em inglês. E nem tinha forças para isso depois de 32 horas de viagem, 22 delas voando. Talvez a atendente tenha percebido minha cara de "fodeu!", porque ela me deu um olhar piedoso junto com o cartão, dizendo que iria ficar tudo bem.

- We will find it!

Eu escolhi acreditar. E comecei a rezar também. E a avisar a todo mundo que também reza, porque eu precisava de ajuda divina.

Anjo das malas, cadê você?

...

O transfer que eu achei no Facebook não era sequestrador. Esperou eu acertar toda a burocracia das malas - o que atrasou em quase uma hora o combinado para o nosso encontro em frente ao Mc Donalds - me ajudou a comprar um chip pro celular e também segurou a minha mão quando a ficha começou a cair.

Eu não tenho uma calcinha! Eu não tenho nem toalha pra tomar banho! Meu Deus, eu vou ter que voltar pro Brasil amanhã!

Preciso fazer um aparte para mandar um beijo pra Tassiane e pro Welson, o casal transfer brasileiro que não me sequestrou e ainda me deu a maior força com pensamentos positivos, além de dicas e suporte emocional. Muito obrigada!


Elizabeth Bay Rd - a rua do hostel
Pronto. Cheguei na minha nova casa. Sem malas.

Semanas antes, o pessoal do hostel tinha enviado um email com todas as informações: chegue e entre; seu quarto - o número seis - vai estar destrancado e a chave em cima da cama; não precisa fazer check in; qualquer problema, ligue em um desses um milhão de números.

Cheguei. Entrei. Quarto seis. Porta destrancada. Luz apagada.

Uai, tem um par de botas ali no canto. Devo ter entrado no quarto errado.

Volta. Começa de novo.

Quarto seis.

Ok, é esse aqui mesmo. Vai ver alguém esqueceu as botas, sei lá. Vou entrar de novo e ascender a luz para checar se...

Mil roupas no chão, mala aberta, secador de cabelo em cima da cama. E o par de botas, ali no canto.

Fato: alguém, que chegou com malas, está hospedado no quarto seis.

Será que tem outro quarto seis? Será que na Austrália seis não é seis? Será que além de sem malas eu também sou sem teto em Sydney?




quarta-feira, 13 de maio de 2015

Episódio 1: Sem lenço, porém com documento

Eu tinha muitas preocupações com a minha chegada em Sydney.

Será que eu vou entender o que o moço da imigração vai perguntar?

Será que todos os documentos pra entrar no país estão aqui?

Será que eu vou achar o endereço da minha nova casa?

Tudo passou pela minha cabeça - e olha que eu sou meio apocalíptica - mas, o "será que eu vou ter o que vestir no dia seguinte?" eu não cogitei.

Cheguei. 

A luz de por do sol refletindo no vidro da janela do desembarque. 

Vou tirar uma foto! 

Não, calma! Não pode usar celular aqui, não quero ser extraditada antes de sair do aeroporto.

Uma paradinha rápida pro xixi e vamos logo enfrentar a imigração.

Um "hello", um sorriso, uma scaneada no passaporte. Fim.

Welcome to Sydney!

Pronto? 

Não quer ver meu visto? Meu comprovante internacional de vacina contra a febre amarela que deu um trabalhão pra conseguir? Nada?

Que lindo!

Agora é só pegar a mala, torcer pra não ser sequestrada pelo transfer que eu achei no Facebook e que comece a brincadeira!

Tá! É só esperar a mala.

...

Deve estar vindo já.

...

Claro que vem.

...

Opa! A vermelha chegou!

Ops! Não é essa não. A minha não tem esse laço.

Mas, relaxa. Daqui a pouco aparece.

...

Se bem que, fiquei um tempinho na fila da imigração, já deu tempo de descer tudo.

E essa mala azul já passou aqui umas cinco vezes...

Mas, as minhas devem ser as próximas. Não pira!

...

Uai, gente! Já foi quase todo mundo embora...

Excuse me, todas as malas desse voo estão aqui?

Yes.

...
...
...

Todas, menos as minhas!


To be continued...